'Contém lactose!' - Jovem vence batalha contra indústria de alimentos e ajuda milhões de pessoas

Jéssica Duarte identificou sua intolerância à lactose aos 21 anos. Em pouco tempo, ela percebeu que faltava clareza aos rótulos dos alimentos no supermercado - poucos informavam sobre a presença ou não da substância, que causa náuseas, dor de estômago e outros efeitos nocivos em 40% da população brasileira (81 milhões de pessoas).

 a catarinense jéssica duarte, de 24 anos, conseguiu a aprovação de uma lei federal para ajudar quem sofre com derivados de leite como ela

a catarinense jéssica duarte, de 24 anos, conseguiu a aprovação de uma lei federal para ajudar quem sofre com derivados de leite como ela

Moradora da cidade de Rio do Sul, em Santa Catarina, ela não desanimou. Tomou uma atitude e criou um abaixo-assinado após pesquisar sobre o assunto e descobrir que andava a passos lentos no Senado um projeto de lei. A proposta de legislação visa obrigar as indústrias de alimentos a exibir nos rótulos a informação sobre lactose.

“Às vezes, parece que a gente não tem voz para mudar a lei. Mas a união faz a força”, diz Jéssica, que conseguiu o apoio de 41 mil pessoas em sua petição online, ao longo de 3 anos de mobilização. A nova regra foi aprovada no Congresso em julho - ela determina que o rótulo dos alimentos devem informar a presença da lactose.

'Vou contar para os meus netos'
"Esta é uma realização que eu vou contar para os meus netos. Exerci a cidadania, isso mostra que a sociedade pode influenciar o país", comemora a jovem. 

Foram "três longos anos de batalhas" desde o início da mobilização, em 2013, escreveu a a própria Jéssica na mensagem de atualização enviada a seus apoiadores.

A felicidade valeu toda a espera: "Dentro dos próximos 6 meses poderemos ver todos os produtos com rótulos bem destacados - contém lactose o não contém lactose. Viva!!!! Que possamos servir de exemplo e inspiração a todos os brasileiros que querem mudar este país!"

Pressão constante
A estratégia de Jéssica foi permanecer atenta ao longo da mobilização. Sempre que uma notícia sobre o projeto de lei saía, ela enviava uma atualização a seus apoiadores, pedia que eles fizessem ações - por exemplo, para que escrevessem emails diretamente para os senadores, cobrando a aprovação da lei. A pressão foi constante.

"Em nenhum momento eu achei que não iria sair. Se em outros países já existe essa lei, por que aqui não?", disse. "Eu nem sabia qual era o passo-a-passo para aprovar uma lei nacional. Eu fui aprendendo sobre o processo."

Clique e veja o vídeo com o depoimento de Jéssica: "Hoje é um dia que é uma vitória para todos os intolerantes, mas eu gostaria que fosse um dia para inspirar as outras pessoas a transformarem o mundo"

Ajuda fundamental
Quem está fazendo seu próprio abaixo-assinado pode usar uma das táticas da jovem: entrar em contato com várias pessoas influentes na internet. Entre os apoiadores de Jéssica estão donos de canais de YouTube sobre lactose, blogs de comida saudável, páginas no Facebook e sites sobre alimentos vegetarianos, além de canais de receita.

 blog 'a lactose e eu' divulgou abaixo-assinado criado por jéssica

blog 'a lactose e eu' divulgou abaixo-assinado criado por jéssica

“Tem várias pessoas engajadas nestas temáticas, e eu pedi ajuda delas para divulgar o abaixo-assinado. Trouxe várias assinaturas", comemora ela.

Outro contato que Jéssica manteve foi com o senador que propôs o projeto de lei, que a manteve informada várias vezes sobre o andamento no Senado.

Essa é uma boa dica para quem estiver fazendo sua própria petição online - seguir o exemplo da Jéssica, que soube dialogar com parlamentares, mas manteve sua mobilização independente, sem interferência política. 

“Eles [parlamentares] pensam muito no fabricante que vai reclamar, na Anvisa que não gosta. Por isso, temos sempre que pressionar", ensina a jovem.

A internet une
Na avaliação da Jéssica, as ferramentas oferecidas pela Change.org facilitam a mobilização. "Eu tive bastante apoio, sempre me deram retorno, fizeram contato comigo. Se eu tivesse criado um site sozinha, não teria o mesmo peso."

A jovem, que é administradora, considera a internet como uma "ponte" que mantém as pessoas unidas em torno de objetivos em comum. "Com certeza une. Como seu juntaria 40 mil pessoas me apoiando se não fosse pela internet? É um meio de chegar à informação e lutar por alguma coisa", afirma.